Troca de baba
Fico assustada com a quantidade de estímulos à banalização da intimidade que existem hoje.
Na televisão, nas revistas, nos programas para jovens, nas propagandas de guaraná. É horrível como a mídia tornou a intimidade uma negócio nada-demais, bobo, ao qual todos devem ter acesso.
Pensei em escrever esse texto ao assistir um trecho do programa ‘Beija Sapo’, da MTV. Gente do céu. Que tosqueira. Fiquei constrangida. Papos como “há quanto tempo você tá ‘na seca’?”, “quantas você já ‘pegou’numa balada?”, “tá todo mundo louco pra beijar!”, “pega e beija!”, insinuam que trocar fluidos bucais com uma pessoa que você nunca viu mais gorda, expor a individualidade e perder completamente o senso crítico são os novos valores da moçada.
Se eu tivesse 75 anos talvez minha opinião fosse meio out-of-time, tudo bem. Mas eu não tenho. Sou jovem, curto baladas e confesso: sempre fui do time das meninas difíceis. Daquelas que precisavam ser conquistadas, ouvir muuuuuuitos elogios e mesmo assim, podiam deixar os finalmentes (na minha inocência, falo de beijos) para outro dia, só pra ver se o cara estava determinado mesmo. Hoje estou casada e não me arrependo nem um pouco da minha lista pequena (que eu achava grande) de rolinhos e namoros. Aproveitei o que devia aproveitar, me arrependi de beijar alguns seres terríveis e fui aprendendo que minha boquinha só beija quem merece.
Hoje parece não existir mais isso. É um tal de “chega e beija” que deus-me-livre. Fora aquelas pessoas que beijam diversos numa noite só. Um troca-troca de baba que dá nojo só de imaginar. E as micaretas? Afe.
Beijo pra mim é intimidade. A Julia Roberts, uma prostituta (veja bem, prostituta) em “Uma Linda Mulher” dizia não beijar os clientes porque isso era um negócio muito íntimo. É mesmo, e nunca vai mudar.
A intimidade não deve ser dividida com os vizinhos, com todos os amigos da escola, com todas as meninas da festa. Intimidade é o que dá graça nos relacionamentos sérios. O conhecer de verdade, o saber do que o outro gosta ou não gosta, o olhar nos olhos e adivinhar um problema, o amar. Já pensou amar todo mundo? Se entregar pra qualquer um e nem perguntar o nome? Não consigo entender como esse povo consegue, e cada vez mais cedo.
Eu tinha 12 anos quando dei meu primeiro selinho. Aos 14, o primeiro beijo de língua, que achei nojento. Hoje a criançada beija de verdade com 9, 10 anos. Nem trocaram todos os dentes ainda e já estão trocando baba com o próximo.
Uma vez me contaram que numa balada com vários amigos e primos, a moçada resolveu fazer um campeonato pra ver quem beijava mais em menos tempo. Saíram contando: “um!”, “cinco!”, “treze!”.
Que nojo. Que falta de noção e amor-próprio.
Tá louco.
