"Você também gosta de levar vantagem em tudo, certo?"

Não, eu não gosto. Inclusive sempre fui muito certinha com as coisas. Em São Paulo eu fico doida porque ninguém se preocupa com ninguém, todos passam por cima de todos, todos furam filas, ninguém respeita os idosos, o trânsito é um inferno de mal-educados, o dia-a-dia é um saco porque todos deixam pra lá os ensinamentos básicos da vida por coisas muito, muito bestas.
Eu, por exemplo, sempre achei errado comprar produtos pirateados ou com preço questionável, dar esmola no semáforo, receber troco errado e não devolver o dinheiro, comprar coisas do submundo. Acho que as regras devem ser seguidas para que se viva bem em sociedade.
No entanto, cometo meus erros. Só que ao contrário de muita gente, aprendo com eles.

Ontem estava com a maior pressa, com horário marcado pra encontrar alguém no metrô Vila Mariana. Meu chefe me segurou no trabalho e saí correndo, atrasada. Chegando à estação, lembrei que ainda precisava comprar o bilhete e pensei na fila imensa que me esperava na bilheteria.
Seguindo a Lei de Gérson e pensando que só eu tinha pressa, só eu merecia passar pela catraca sem ter que pegar fila e só eu estava cansada após mais um dia de trabalho, resolvi comprar o bilhete de um ambulante. Pensei: ‘são só dez centavos a mais e eu não pego fila’. Havia feito isso só uma vez até ontem.
Comprei o bilhete por R$2,40 e fui à catraca. Quando inseri o produto falsificado, roubado, comprado a rodo, sei lá, ele não funcionou. Uma luz vermelha começou a piscar sobre mim, um alarme estridente começou a soar, os alto-falantes bradaram ‘Bilhete inválido! Bilhete inválido’, e de repente me vi cercada por cinco funcionários do metrô e por pelo menos 20 membros da SWAT fardados e armados. Um deles chutou minhas costas e eu caí no chão, ouvindo o outro falar sobre os meus direitos enquanto me algemava. Olhei em volta e todos os passantes apontavam pra mim e me chamavam de bandida pra baixo, cuspindo de vez em quando.
Me senti péssima.

Óbvio que parte dessa história de terror é fruto da minha mente diabólica, mas o bilhete realmente não funcionou. Minha cara queimou quando fui passar e a catraca não me liberou. Um funcionário veio e olhou o bilhete, dizendo que às vezes isso acontece e que ia buscar outro pra mim. Só que ele me olhava com aquela cara de ‘eu sei o que você fez no minuto passado’ e eu morri de vergonha, sentindo-me, realmente, uma criminosa safada.
Nunca mais compro de abulante.

(Confesso que não confio nem um pouco no Wikipedia. No entanto, busquei essa informação lá e, como eu já sabia da história e só queria confirmar, tá valendo.
Seguem a ‘Lei de Gérson’ as pessoas que gostam de levar vantagem em tudo, no sentido negativo de se aproveitar de todas as situações em benefício próprio, sem se importar com a ética.
A expressão originou-se em uma propaganda da década de 70, dos cigarros Vila Rica, na qual o meia armador Gérson, da seleção brasileira de futebol, era o protagonista. A propaganda dizia que a marca Vila Rica era vantajosa por ser melhor e mais barata que as outras, e Gérson dizia no final: “Você também gosta de levar vantagem em tudo, certo?”. É isso.)

This entry was posted on sexta-feira, abril 20th, 2007 at 15:04 and is filed under Só rindo. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

 

6 Responses to “"Você também gosta de levar vantagem em tudo, certo?"”

  1. Lisi Says:

    Letras, música e cerveja, tb é cultura!
    Nunca tinha ouvido falar na lei de Gérson.
    E Dani, é maravilhoso que ainda exista no mundo gente como você, pena q seja excessao…
    Bjo

  2. ricardo Says:

    Parabéns pelo texto, delicioso de se ler.
    Sobre a parte fictícia, se fosse um certo turco peludo as coisas teriam acontecido exatamente da forma como descreveu.
    E os caras da SWAT ainda bradariam “Holy shit! achamos o sobrinho foragido do Sadam!”.
    E o turco gritando “buda gui bari! nu soi eu, liga bra babai!”

  3. Kelli Says:

    Incrível sua capacidade de dramatizar tanto um “beeeeem” da catraca. Chorei de rir, amiga.

  4. Kelli Says:

    Mas falando sério, essa é uma das coisas que sinto falta da terra do gelo.

  5. Peixoto Says:

    Adorei o seu texto, mas ainda mais do comentário do Richie.

    “buda gui bari! nu soi eu, liga bra babai!”

    Huahuauahauhauhauahuaha =o)

  6. Baddo Says:

    Concordo plenamente com você. Seguir regras é ter, além de um bom senso social, a consciência tranqüila. E isto o dinheiro não pode comprar.

    Quanto à pirataria, bem, não podemos ser razoáveis mas, em algumas ocasiões é um mal necessário. Infelizmente a alta taxação alfandegária, que por motivos de proteção do produtor brasileiro devo concordar, munida ao baixo valor valor da moeda nacional; faz com que paguemos absurdos em softwares e produtos eletrônicos em geral, levando aos menos favorecidos, caso queiram ter uma experiência própria, a apelar para o comércio de produtos falsificados. Uma pena, pois todos acabam saindo perdendo de algum modo por isto.

Leave a Reply