Cheiros que não acabam mais

São Paulo tem uma variedade de cheiros tão diversos que é impressionante. Num dia de semana normal, ao sair de casa sinto cheiro de feijão. Tenho uma vizinha que adora cozinhar feijão às 8h da manhã. Ao entrar no elevador, sinto cheiro de perfume feminino. Bastante perfume feminino. Saindo para a rua, sinto cheiro de carro. Pra quem não sabe, cheiro de carro é uma mistura de blends de borracha queimada com aromas combustíveis, como gasolina, álcool, GNV, diesel.
Aí começo a caminhada até a estação. Sinto cheiro de cocô de gato, pastilha de freio, do xampu da moça que passa de cabelo molhado, do Axe Super Maccho do moço que acaba de sair do chuveiro e vai bater ponto na GM jájá. Cheiro de madeira nova da loja de móveis, cheiro de gasolina nova no posto. Novamente, sinto cheiro de carro e borracha e frentistas, daqueles que passam tanto gel no cabelo que ao final do dia ainda parecem recém-saídos do banho. Passo em frente a um boteco que toca sertanejos baratos desde cedo e cheira fritura velha com pinga. Cheiro forte de diesel queimado, estou chegando à estação. Não sei por que, mas sempre sinto o cheiro daquelas massinhas de fixar vidro em janela. Não sei de onde ele vem, um dia descubro. Pra mim, é o cheiro da estação. Na plataforma, sinto o cheiro da poeira e das pedras que ficam entre os trilhos.
Se penso que minha aventura pára, por aí, hahaha!!!! Agora eu tenho que entrar no trem!
Já dentro do vagão as coisas ficam mais difíceis de definir, mas posso dizer que sinto cheiros de pum, perfume barato, desodorante de quinta, perfume importado, hidratante para os pés, calça jeans usada-por-três-dias-seguidos, couro surrado, relaxador de cachos, banho de mentira, chulé, pum, cabelo ensebado, roupa guardada, amendoim, pinga, pum, remédio, cecê ameno, cecê médio, cecê grave, cecê insuportável, bafo matinal, bala de hortelã, pum. Tudo de uma vez. Quando disse que a mistura de cheiros por aqui é impressionante, não exagerei.
Chegando à estação, após um breve cheiro de oxigênio fresco (poluído, mas ainda oxigênio), o cheiro de gente predomina de novo. Ao entrar no metrô as coisas não mudam muito, só o oxigênio fica morno. O cheiro humano é um pouquinho menos desagradável, mas mesmo assim, a quantidade de aromas ainda é enorme e continua assim até eu desembarcar do ônibus, depois do metrô, já na esquina do escritório. Ao pisar na calçada já me bate um cheiro forte de restaurante chinês daqueles bem porquinhos. Um mix de yakissoba com pastel com rolinhos primavera com gordura velha. Viro a esquina e tem outro boteco. De novo, cheiro de pinga com torresminho frito-tem-mais-de-três-dias. Aí vem um cheiro horroroso de xixi. Cheiro de gente sem banho. Cheiro de cachorro sarnento.
Ainda bem que estou chegando. Atravesso a rua e sinto cheiro de bacalhau. Bacalhau, o peixe, que na esquina tem um restaurante português. Cheiro de ônibus, cheiro de restos de demolição, cheiro de água empoçada. No prédio já sinto cheiro de desinfetante de litrão. Entro no elevador e sinto o cheiro do tapete. Chego ao décimo andar e sinto cheiro de corredor sem janelas.

São 09h30 da manhã (da mesma manhã do início do texto) e acho melhor parar de relatar minhas aventuras olfativas, senão precisarei criar um blog só sobre esse assunto.



(No começo do post pensei em descrever um dia inteiro, mas a narrativa de uma hora e meia dos odores da minha vida semanal já deu preguiça.)

This entry was posted on quarta-feira, junho 27th, 2007 at 20:32 and is filed under Metrô. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

 

3 Responses to “Cheiros que não acabam mais”

  1. Lisi Says:

    “PUM, perfume barato, desodorante de quinta, perfume importado, hidratante para os pés, calça jeans usada-por-três-dias-seguidos, couro surrado, relaxador de cachos, banho de mentira, chulé, PUM, cabelo ensebado, roupa guardada, amendoim, pinga, PUM, remédio, cecê ameno, cecê médio, cecê grave, cecê insuportável, bafo matinal, bala de hortelã, PUM”

    essa parte foi muuuito hilária!
    Dani e suas aventuras no metrô.
    E ainda bem que vc parou na uma hora e meia, senao iam páginas de texto… =P
    Saudade docê Dani!
    Bjoo

  2. Kelli Says:

    cecê insuportável logo pela manhã é algo que custo pra entender.

    O cheiro que sinto ao entrar no escritório é “cheiro de corredor sem janela com ar-condicionado ligado e fumaça de cigarro de ontem ainda no ar”. É, é péssimo :S

  3. Ma Says:

    e dá-lhe puns!! Hahahaha, hooooooorselaughing…
    Beijo

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