Denúncia Anônima

- Boa noite… (eu entrava no ônibus, indo pra casa depois da terapia)
- Boa noite, amiga! Tudo bem?
- Tudo… e o senhor?
- Tudo certo, graças a deus. Vai viajar?
- Viajar?
- É, agora no feriado…
- Vou nada! Ficarei em casa descansando. Às vezes uma viagem cansa mais que o trabalho, não é? (na verdade, eu ia viajar. mas não sei por que, respondi que não. Talvez até pra evitar conversa)
- Verdade…
- Quero ficar em casa.
- Eu vou passear.
- É? Vai pra onde?
- Passear entre o (XXXXXXX) e o (XXXXX)…. hahaha… (bairros que formam o itinerário do ônibus)
- Ah! Vai trabalhar no feriado?!
- Opa! Falei pra minha mãe que não queria estudar pra virar motorista de ônibus! Hahaha!
- Afe! Ai, ai… (ele riu, mas eu senti tristeza. Disfarcei e ri também)
- Nada. Escolhi trabalhar. Não dá pra viajar com a família toda em feriado. Você é que devia, porque mora num lugar tranquilo.
- Por quê?
- Ah! Eu moro lá no Cingapura Ipiranga… Se a gente deixa a casa sozinha, os ‘nóia’ entram lá e roubam tudo. (pra quem não sabe, Cingapura é um projeto do Maluf: com a intenção de acabar com as favelas, foram construídos prédios com apartamentos a baixíssimos preços, acessíveis para a população humilde de SP, e que acabaram virando cortiços verticais. Em respeito à narrativa, vou relevar os aspectos político e higienista disso agora)
- Nossa! Não dá pra deixar a casa sozinha? Nunca?
- Nunca. Alguém tem que ficar. Lá é complicado…. Sabe que pra entrar nos prédios a gente tem que ser revistado? Todo mundo leva geral.
- Mas de quem? Da polícia? (eu e minha primeira demonstração de ingenuidade e alienação)
- Que polícia… Dos traficantes. Eles mandam em tudo lá e não querem deixar entrar policial disfarçado.
- Puxa! Que horror!
- Pois é… Nem recebo visita em casa por causa disso. Deixar as pessoas constrangidas… Dia desses, um sobrinho da mulher foi lá e fizeram ele jogar todas as coisas da mochila no chão. Ele ficou chateado…
- Nossa. Será que não tem como o senhor sair de lá e ir viver em outro lugar?… Mas também, tá tudo tão caro… (eu de novo. Agora tentando superar a própria falta de noção com o final da sentença)
- Ah… Não dá. Um de três quartos que eu tenho lá não vou arranjar em outro lugar. Não vale a pena vender porque o dinheiro não vai ser suficiente pra comprar outro.
- E quanto vale um apartamento lá? Como o seu? (juro que achei que ele diria uns 40 mil)
- Sabe que eu reformei há pouco tempo, né? Gastei uns 15 mil. Os apartamentos valem em torno de 18 mil. Hoje, talvez, o meu esteja valendo na casa dos 25.
- É… não dá pra comprar em outro lugar. (toma, Daniela!)
- E isso fora os meus móveis. Tudo o que tenho no meu quarto enche um três cômodos. Não dá. A gente vai comprando pra ficar o resto da vida por ali mesmo. E ainda tem que aguentar os ‘nóia’ armado, pra lá e pra cá. Não tem o que fazer.
- E não tem polícia? (aqui fui ingênua de novo. Mas não tive culpa…)
- Tem, tem polícia! A polícia militar foi lá e cobrou 20 mil pra fazer a segurança da boca. O ‘tático’ pediu 30 e a ‘rota’, 40. Ficaram com o ‘tático’. (polícias militar, tática e rota. Cada uma com sua especialidade na defesa do cidadão)
- Nossa! É assim mesmo? Puxa vida…
- Ô se é! E se a gente ligar no 181 eles vêm e falam “tem gente aqui denunciando. Temos uma gravação e se a gente descobrir quem é, morre”. A gente não pode fazer nada. (o 181 é o disque-denúncia anônimo, para o qual as pessoas são encorajadas pelo governo a ligar e “manter suas identidades no mais absoluto sigilo”)
- E mesmo assim os caras entram na sua casa quando ela está vazia?
- Entrar, entra, né? Aí a gente precisa chamar o ‘gerente’ pra tirar ele de lá.
- Gerente? Que gerente?
- O ‘gerente’ da boca. Aí ele vai e tira o ‘nóia’ de lá. Eles são organizados. Aquilo tudo é do PCC.
- Nossa… imaginei gerente de tudo, menos de boca.
- É, amiga. A gente tá no Brasil. (É amigo, e se eu ficar de olhos fechados não tenho mesmo do que reclamar.)

This entry was posted on terça-feira, outubro 30th, 2007 at 23:57 and is filed under Mundo. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

 

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