Eu discordo do Reinaldo Azevedo

Ontem li a Veja desta semana e deparei-me com um artigo bem controverso do Reinaldo Azevedo.
Basicamente, ele defende que a imprensa cumpre com suas obrigações para com a sociedade ao cobrir, de forma ‘abrangente’ o caso da menina Isabella. Entre outras coisas, ele diz que, como era o caso do acidente da TAM, a democracia deve garantir a livre circulação de informações a respeito de fatos que são de interesse da população, e que o que o povo chama de ‘mídia’ ele prefere chamar de ‘imprensa’.

Agora, minha opinião. E nem vou citar o acidente da TAM, porque esse post viraria um testamento.

Concordo que a sociedade deve ser informada a respeito de tudo, mas o que vemos na cobertura desses tipos de acontecimento não é simplesmente ‘reportagem investigativa’, e sim um processo que pode ser chamado de ‘exploração da dor’. Há, sim, um trabalho sério de imprensa sendo desenvolvido. No entanto, além de detalhes do assassinato sendo repetidos sem descanso, o que eu percebo é um clamor à justiça com as próprias mãos.

Todos os dias, em todos os jornais, há uma novidade a respeito do caso. Só que, também todos os dias, alguns veículos de qualidade duvidosa insistem em explorar o que de nada serve às investigações e leva as pessoas a acharem-se donas da verdade, como se tivessem o direito (e o poder) de julgar os outros. Fotos da garota, fotos da cena do crime, vídeos que ela gravou na escolinha, fotos da garota, da cena do crime, vídeos da escolinha, fotos, cena, crime, escolinha…
Pra mim, sinceramente, este é um festival de horrores completamente desnecessário, uma porca exploração midiática de uma tragédia do tamanho de um bonde.
A morte da menina arrasou com a vida de algumas pessoas que a amavam – vejam bem, amavam – e que agora estão expostas ao mundo e à opinião alheia quando tenho certeza que se pudessem, prefeririam ficar em casa, em silêncio, guardando o luto que lhes é de direito.

Lembro de quando perdi meu filho. Lembro da dor que era cada abraço que eu recebia, cada condolência, porque eu não queria nem falar, só chorar e ficar longe da companhia de qualquer pessoa, porque nada que me diziam aplacava o que eu sentia e tudo me parecia extremamente inútil e irritante.

Agora, pensem na mãe da Isabella. Pensem no que ela deve estar sentindo ao ver a maior tragédia da sua vida escarafunchada por todos os meios de comunicação, ao ver as fotos das quais ela agora provavelmente gostaria de fugir, ao ver, rever e ouvir os detalhes dos últimos minutos de vida da filha assassinada. Ao receber telefonemas da imprensa a toda hora. Pensem na sensação dela ao perceber que as pessoas à sua volta, a cidade onde mora, a própria sociedade, busca saber mais e mais – numa fúria quase orgásmica – a respeito dos detalhes do acontecimento. E pensem na cabeça dela, tendo que se manter equilibrada pra poder parar em pé e sabendo, como ninguém, que nenhuma justiça e nenhum piquete à porta da casa dos possíveis assassinos trará sua menina de volta.
Imaginem então se ela já soubesse, como eu sei, que todo esse drama será esquecido por quase todos os inflamados de hoje, menos por ela.
Alguém precisa disso? Eu acho que não.

This entry was posted on terça-feira, maio 6th, 2008 at 16:44 and is filed under Coração. You can follow any responses to this entry through the RSS 2.0 feed. You can leave a response, or trackback from your own site.

 

2 Responses to “Eu discordo do Reinaldo Azevedo”

  1. Toninho Moura Says:

    Puxa, teu depoimento foi contundente.
    Minha mãe também perdeu um filho, que seria o mais velho dos meus irmãos.
    Peço-lhe que aceite minha solidariedade na sua dor.

  2. Kelli Says:

    Eu to me controlando pra nao escrever sobre isso tbém… essa cobertura toda, acho demais de apelativo… um show de horror e toda aquela gente que vai ser “solidária” na porta da casa dos outros, só é “solidária” porque nao tem o que fazer, vamos combinar…

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