Archive for the ‘Coração’ Category

Sobre sonhos

Admiro quem tem sonhos.
Quem sonha alcançar um objetivo, sonha ter uma casa, sonha ter filhos ou fazer uma grande viagem.

Estranho.
Eu também tenho alguns objetivos de vida, só que, não sei porque, não os chamo de sonhos. Na verdade, acho que não tenho sonhos.
Penso que isso talvez seja uma forma de limite interno, um jeito de eu não me decepcionar com os rumos que as coisas tomam, mas por outro lado, acho também que é uma forma de auto-sabotagem.

Assim: se eu não sonho, menores as chances de frustração. Por outro lado, é óbvio que serão menores as emoções que terei na vida. Isso é muito claro pra mim, assim como meus defeitos.
Esquisito, né?
Queria que não fosse desse jeito, mas acho que não depende de algo consciente, algo que eu possa mudar simplesmente querendo. Isso faz parte do que eu sou, da forma realista como encaro a vida e tudo o que me acontece.

Tô melancólica hoje. Eu sei.

Posted by DaniPassos on maio 27th, 2008 5 Comments

Simplicidade

É interessante como algumas coisas tão simples são capazes de nos fazer felizes.
Fico pensando nisso às vezes…. Um pão na chapa no café da manhã, um copo d’água quando acabamos de escovar os dentes, o vento fresco que bate no rosto quando o metrô está chegando.

Sou uma pessoa de hábitos simples e práticos. Talvez seja por isso que eu consiga tirar satisfação de coisas tão comuns. Sei lá.

Quer coisa melhor que acordar cedo no sábado, lembrar que é sábado e voltar a cochilar mais um pouquinho? Eu faço isso sempre. E durmo sorrindo.
E comer uma comidinha de mãe de vez em quando?
Fazer xixi quando a gente tá apertado…
Sentir o cheirinho do travesseiro…
Encontrar quem a gente ama…
Receber um elogio bobo…
Chegar no ponto e descobrir que o ônibus já está lá…
Passear a pé num domingo à tarde…
Falar sozinho…

Por isso não dá pra dizer que não somos felizes em momento algum.
É preciso prestar atenção às pequenas coisas que nos agradam.

E as que me agradam, pelo menos, acontecem quase todos os dias.

Posted by DaniPassos on maio 22nd, 2008 4 Comments

Eu discordo do Reinaldo Azevedo

Ontem li a Veja desta semana e deparei-me com um artigo bem controverso do Reinaldo Azevedo.
Basicamente, ele defende que a imprensa cumpre com suas obrigações para com a sociedade ao cobrir, de forma ‘abrangente’ o caso da menina Isabella. Entre outras coisas, ele diz que, como era o caso do acidente da TAM, a democracia deve garantir a livre circulação de informações a respeito de fatos que são de interesse da população, e que o que o povo chama de ‘mídia’ ele prefere chamar de ‘imprensa’.

Agora, minha opinião. E nem vou citar o acidente da TAM, porque esse post viraria um testamento.

Concordo que a sociedade deve ser informada a respeito de tudo, mas o que vemos na cobertura desses tipos de acontecimento não é simplesmente ‘reportagem investigativa’, e sim um processo que pode ser chamado de ‘exploração da dor’. Há, sim, um trabalho sério de imprensa sendo desenvolvido. No entanto, além de detalhes do assassinato sendo repetidos sem descanso, o que eu percebo é um clamor à justiça com as próprias mãos.

Todos os dias, em todos os jornais, há uma novidade a respeito do caso. Só que, também todos os dias, alguns veículos de qualidade duvidosa insistem em explorar o que de nada serve às investigações e leva as pessoas a acharem-se donas da verdade, como se tivessem o direito (e o poder) de julgar os outros. Fotos da garota, fotos da cena do crime, vídeos que ela gravou na escolinha, fotos da garota, da cena do crime, vídeos da escolinha, fotos, cena, crime, escolinha…
Pra mim, sinceramente, este é um festival de horrores completamente desnecessário, uma porca exploração midiática de uma tragédia do tamanho de um bonde.
A morte da menina arrasou com a vida de algumas pessoas que a amavam – vejam bem, amavam – e que agora estão expostas ao mundo e à opinião alheia quando tenho certeza que se pudessem, prefeririam ficar em casa, em silêncio, guardando o luto que lhes é de direito.

Lembro de quando perdi meu filho. Lembro da dor que era cada abraço que eu recebia, cada condolência, porque eu não queria nem falar, só chorar e ficar longe da companhia de qualquer pessoa, porque nada que me diziam aplacava o que eu sentia e tudo me parecia extremamente inútil e irritante.

Agora, pensem na mãe da Isabella. Pensem no que ela deve estar sentindo ao ver a maior tragédia da sua vida escarafunchada por todos os meios de comunicação, ao ver as fotos das quais ela agora provavelmente gostaria de fugir, ao ver, rever e ouvir os detalhes dos últimos minutos de vida da filha assassinada. Ao receber telefonemas da imprensa a toda hora. Pensem na sensação dela ao perceber que as pessoas à sua volta, a cidade onde mora, a própria sociedade, busca saber mais e mais – numa fúria quase orgásmica – a respeito dos detalhes do acontecimento. E pensem na cabeça dela, tendo que se manter equilibrada pra poder parar em pé e sabendo, como ninguém, que nenhuma justiça e nenhum piquete à porta da casa dos possíveis assassinos trará sua menina de volta.
Imaginem então se ela já soubesse, como eu sei, que todo esse drama será esquecido por quase todos os inflamados de hoje, menos por ela.
Alguém precisa disso? Eu acho que não.

Posted by DaniPassos on maio 6th, 2008 2 Comments

Difícil, mas não impossível - reedição

Atendendo a pedidos, segue o post apagado.

“Tenho várias amigas recém-casadas, casadas-de-pouco-tempo e outras prontas-pra-casar. Todas, cheias de sonhos, têm tendência a dar importância demais a certos percalços que aparecem no meio do caminho no início da vida a dois. Por isso, resolvi falar um pouco aqui sobre a minha experiência (sou casada há três anos, dois meses e 12 dias).

O principal aviso que costumo dar é: por mais que os dois se amem e sonhem passar o resto da vida juntos, o primeiro ano casados (ou morando juntos, independentes dos pais) é simplesmente uma M E L E C A. Outra coisa: eu sou totalmente tradicional. Casamento é pra sempre. Entendo que há exceções, mas a única coisa, pra mim, que justifica o fim de uma relação dessas é a falta de amor. O resto a gente tira de letra.

Explico: Vocês se conhecem muito bem, admiram um ao outro, e adoram ficar juntos, dividindo tudo. Ok. Só que isso é coisa de namorado. Namorados, quando brigam ou se densetendem por qualquer motivo, vão cada um para sua casa e têm um tempinho pra pensar sem brigar mais. Agora, quando se está casado, não se tem para onde fugir. Tem sim que dormir na mesma cama, encarar o outro no café da manhã e tentar resolver as coisas em menos tempo, pra tudo voltar a ficar bem logo. Só quando conhecemos o urso em sua caverna é que o conhecemos de verdade. Manias, hábitos e uma criação completamente diferente da sua podem render diversos desentendimentos bem chatos.

Outra coisa importante é sempre valorizar mais o que o outro tem de bom do que seus defeitos. É um saco só ouvir críticas quando sabemos estar fazendo mais que o possível pra tornar o lar um recanto, um lugar agradável. Mesmo as pequenas coisas devem ser lembradas (mais pelo bem que para o mal. Neste caso, é preciso tentar deixar algo pra lá, porque nós também temos defeitos).

Algumas coisas especialmente difíceis são:

- Dividir o quarto (e a cama) com alguém que gosta de ver tv deitado quando você não pode nem com barulho, muito menos com luz na sua cara para relaxar.

- Dividir as contas da casa sem que um dos dois saia perdendo;

- Aguentar a ‘chatice’ do outro reclamando do barulho quando você só quer ver o Jornal da Globo. E depois o Intercine. Ainda mais quando você adora usar a luz da tv ligada de madrugada pra não tropeçar ao ir ao banheiro;

- A falta de entendimento dos homens em relação ao trabalhÃo que dá manter uma casa. Isso além das contas pra pagar. Ainda existe hoje o conceito de ‘trabalho de homem’ - trocar lâmpadas, consertar um chuveiro quebrado; e ‘trabalho de mulher’ - lavar, cozinhar, estender e tirar roupas do varal, passar, limpar, organizar, orientar a empregada, fazer feira, fazer supermercado (isso só pra citar algumas coisas DIÁRIAS), só que, considerando que os dois trabalham fora, isso é inaplicável. Pra ser possível uma relação feliz e saudável com essa idéia antiga, a mulher não pode trabalhar fora. Aí sim…;

- A falta de entendimento das mulheres sobre a necessidade dos homens de uma noite ou duas de cerveja por semana (só com os amigos, afinal, com ela o cara está todo SANTO dia. Ar! O homem precisa de ar!);

- A falta de noção do homem em pensar que já que está todo SANTO dia com a mesma mulher, não precisa levá-la pra jantar, ao cinema ou ficar em casa tomando uma cerveja com ela;

- Aguentar a encheção de saco do outro que te chama de bagunceiro quando é facinho ver coisas dele(a) espalhadas pela casa. Pior: as coisas que ele(a) chama de ‘minha organização’;

- Quando um tem formiga na bunda e o outro é caseiro;

- Suportar o silêncio pós-briga quando você está doida pra falar mais e fazê-lo entender certas coisas que parecem não ter ficado claras (não tem jeito, eu penso com uma cabeça feminina);

- E suportar a mulher falando sem parar quando o que o cara quer é mais ficar quieto no seu canto? Terrível.

Realmente, existe muita coisa. SÓ QUE, se passarmos todo o tempo tentando mudar o outro, logo perceberemos que estamos casados com um estranho. Lidar com as diferenças de forma construtiva é o que realmente faz a essência de um casal. E dividir as tarefas em casa é fundamental. Não é nada fácil, muitas conversinhas despretensiosas viram climão e muita coisa a gente repete, repete e repete, mas é como se falássemos com o vento.
Enfim.

O ser humano tem o costume de valorizar mais o que dá errado, mas há sim, muita coisa boa na vida a dois. Muito (muito, muito) mais até que as ruins, só que é preciso estar consciente disso antes de criar expectativas utópicas a respeito da aventura que é dividir o mesmo teto com a pessoa que a gente ama. Afinal, quanto mais expectativas, maiores as chances de frustração.

Eu, corajosa que sou, SEMPRE vou recomendar o casamento.
Inclusive porque sou um caso de sucesso.”

Posted by DaniPassos on abril 14th, 2008 5 Comments

Like the weekends

Tenho que contar um segredo: O Sol e a Lua se amam.
É verdade. Não sei se você já sabia, mas eles são apaixonados e nunca esquecem um do outro. Só que, em nome de seu amor nunca se encontram, porque estão fadados a viver e trabalhar em períodos diferentes das 24 horas do dia. O Sol, que se levanta cedo para aquecer e iluminar o mundo, não se encontra com a Lua porque ela trabalha à noite, embelezando as trevas e inspirando os apaixonados.

Ela dorme quando ele acorda, ele se recolhe quando ela aparece. Um do claro, outro do escuro. Um do calor do dia, outro da brisa fresca que vem com a noite. Amantes que se acompanham em pensamento e que vivem à espera do eclipse, o esperado momento em que poderão se encontrar por um pequeno tempo, que embora seja mínimo em comparação ao que passam separados, para eles é tudo.

(suspiro)…

Posted by DaniPassos on novembro 1st, 2007 No Comments

Jogando tudo

Fez um ano. Mais um dia igual, só.
E a vida anda, com tudo acontecendo normalmente. Coisas boas e merdas, tudo normalmente.
O Marido está de emprego novo, para orgulho da Mulher que é fã dele.

Esta noite dormi muito mal. Ontem foi um dia preguiçoso, com direito a pizza fria com coca-cola gelada. Depois fomos passear de carro por aí. Aliás, carro, não, um BMW 335I, desculpa. No mínimo, com C maiúsculo. Cachorro-quente e depois pizza de novo. E eu guiei o carro da Consolação até a Antonio Bento, à noite, atrás do Escortão vermelho.
Depois de um final de semana regado a saídas de rotina psicológicas e fisiológicas que incluíram casa cheia, feijoada (na qual tô ficando cada vez melhor) e fast-food na veia, lógico que iria dormir mal. Ah.. Como às vezes é chato ser chata…
Mas é gostoso ser confusa. Dá mais liberdade ao pensamento.


Haha.

Posted by DaniPassos on outubro 8th, 2007 No Comments

Estou triste e não quero falar. Não quero escrever, não quero pensar.
Se pudesse, tomaria um remédio bem forte pra dormir por meses.
Já faz quase um ano e a sensação não vai embora. É um inferno. Minha memória age como mocinha e vilã da história. Por causa dela tenho a impressão de que tudo aconteceu ontem. Os diálogos, os exames, as situações, os medos, tudo o que eu queria esquecer. Mas sem essa mesma memória perco o que me é mais precioso, que é a memória dele. Só o que sobrou do maior amor do mundo, do sentimento mais lindo que eu senti na vida, da minha melhor experiência. A lembrança do meu filho é minha única riqueza.
Devo ter feito ou sido algo de muito ruim em outra vida pra merecer sofrer desse jeito.
É um aperto no peito que não passa… Relaxo às vezes, mas a pressão não vai embora. Ela dorme, e o vulcão de dor dentro de mim parece que está sempre pronto a explodir e acabar comigo. Lutar contra isso está me obrigando a um esforço sobre-humano. E tem hora, sinceramente, que eu questiono se realmente vale a pena seguir em frente, mesmo tendo certeza absoluta que esse sentimento vai me perseguir pelo resto da vida. Não sei se vale. Não sei se eu agüento. Só sei que a falta que eu sinto do meu filho é maior do que qualquer coisa boa que um dia possa vir a me acontecer. Muito maior. E o buraco que eu tenho no coração vai sangrar pra sempre.

Posted by DaniPassos on setembro 24th, 2007 No Comments

Aos amigos que estão abandonando meu blog por falta de atualização

Tem gente me cobrando post.
Tem gente me pressionando por resultados.
Tem gente que me adora e quer notícias minhas.

Ando sem tempo… e com muito trabalho, graças a deus.
Enfim.
Tá tudo bem na minha vida. Claro que esse ‘bem’ é relativo… Mas na medida do possível, estou indo.
Dias vão e vem e eu percebi que já cheguei no máximo de recuperação. Se fosse uma doença, já estaria a 100%. Não porque me sinta a 100%, mas porque não vai mais.
Algumas pessoas me disseram que isso ficaria em mim como uma cicatriz. Verdade. Uma cicatriz bem dolorida, daquelas que passam despercebidas a maior parte do tempo, mas quando doem, doem ‘que nem homem’, se é que vocês me entendem.
É uma droga não ter mais meu filho.
É uma droga não ter que acordar de madrugada pra ver se ele está quentinho ou se já chutou o edredom pra longe. Não ter que acordar cedo e correr para a cozinha e preparar a mamadeira antes dele acordar.
É uma droga não ter pra quem comprar um brinquedo legal. Não ter pra quem fazer um macarrão com molho vermelho e ouvir aquele “hum! Tô cheirando um cheirinho de macarrão!”.
É uma droga viver sem ele.

E é uma droga viver tentando me convencer de que eu consigo fazer isso.
Eu não tenho escolha.

Posted by DaniPassos on setembro 4th, 2007 3 Comments

Filhinho

O nome do filhote do Sabiá e da Passarinha é Filhinho.
Eu e o Marido pensamos nesse nome, cada um num momento diferente. Então, concluímos juntos que essa seria a idéia nosso careca. Talvez ele até tenha “soprado” pra gente. Vai saber…

Bom, esse é o nome que o Pedro provavelmente daria pra ele:
Filhinho.

Posted by DaniPassos on agosto 26th, 2007 3 Comments

Sabiá e Passarinha

Sabiá é um cara bem legal que foi morar lá em casa no ano passado. Presente de um amigo do Marido, chegou pra alegrar ainda mais a vida do Pedro. Sabiá é um canário, que ganhou esse nome por causa daquela música “Sabiá lá na gaiola, fez um buraquinho. Voou, voou, voou, voou…”. Questionado, Pedro respondeu que o nome do passarinho seria Sabiá. Um canário chamado Sabiá.
Um pouco depois, de presente de aniversário, ele ganhou outro canarinho. Dessa vez uma fêmea amarela, ao qual ‘batizou’ de Passarinha. Um canário fêmea chamado Passarinha.
Sabiá e Passarinha têm personalidades bem distintas. Sim, personalidades. Enquanto ele é um macho turrão, de pouco papo e bela cantoria quando está de bom-humor, ela é delicada, atenciosa, gosta de conversar e canta pouco (segundo o Marido, só os canários machos cantam).

Quando se conheceram não foram muito com a cara um do outro, e brigavam sempre. Normalmente, quem perdia mais penas era a Passarinha, vítima da fragilidade do próprio sexo, e constantemente os dois tinham que passar dias separados dentro da gaiola.
Com o tempo e muita conversa, ficaram amigos. Depois resolveram multiplicar a espécie, mas os ovos nunca vingavam. Por vezes apareciam espatifados no chão da gaiola.
Meses se passaram e muita coisa triste aconteceu na nossa casa, e eu acredito que foi isso que impediu que os dois procriassem.
Enfim.
Sabiá e Passarinha pararam de brigar e hoje se dão muito bem. Quatro novos ovinhos surgiram no ninho, e após quase 20 dias de espera, nasceu hoje o primeiro filhinho dos dois.
Nem imagino como eu e o Marido podemos ajudar a nova família além do que já fazemos todos os dias, trocando a água, dando ração e mantendo a gaiola limpa. Acho que só podemos torcer para o pequeno canarinho vingar e crescer bonito. Quem sabe nascem mais? Ainda há três ovos, e Madame Passarinha está dedicada na tarefa de chocar.
Tomara que vinguem e cresçam, todos eles.

O difícil agora é dar um nome, digno da imaginação do nosso pequenino, ao novo passarinho.

Posted by DaniPassos on agosto 20th, 2007 2 Comments

Passou

Nada de inesperado aconteceu.
Nenhum sentimento novo, nenhuma nova mágoa.
O dia correu como qualquer outro, exatamente como eu esperava.
Era sim, pra ser especial, um dia de festa, mas foi como todos os outros desde que aconteceu. E como todos até o fim da minha vida.

Especial seria se ele estivesse aqui. Só assim. Teríamos bolo, visitas, presentes e parabéns. Agora, é só mais um dia comum.

Me prender a datas só faz com que eu me sinta pior… O negócio é esquecer do calendário.

Posted by DaniPassos on agosto 3rd, 2007 2 Comments

O que ficou é de papel

Ainda não posso com as fotos. Principalmente aquelas mais recentes, as últimas. A risada dele, os olhos, a alegria e a cara de serelepe malandro me fazem desabar de novo. Como quando achamos que estava tudo bem e descobrimos que a maldita tinha se recuperado e tomado o corpinho dele por completo: senti como aqueles caras que estão apanhando nos filmes, no chão, e que quando conseguem se levantar levam uma cadeirada nas costas que derruba-os com violência. De volta à estaca zero… É essa a sensação que tenho quando vejo uma foto dele, ou dele com a gente.
As mais antigas não me abalam tanto, talvez por terem sido feitas quando nem imaginávamos o que estava pra acontecer, quando nossa realidade nem de longe nos consumia. Quando fazíamos planos para o futuro, quando sonhávamos com as coisas que ele iria fazer. Quando fazíamos um monte de fotos e ampliações, planejando um mural lindo para nossa casa.
Já as mais recentes são tão lindas quanto terríveis, porque mostram um menininho tão alegre, tão cheio de vida que me dão vontade de desistir de tudo, porque aí percebo que por mais que eu queira, essa dor nunca sairá de mim.
Por outro lado, agradeço todos os dias por ter passado o tempo que passei com ele e ter sido tão importante em sua vida pra torná-lo um cara tão legal.
O luto é realmente ambíguo e confuso. Como uma depressão crônica.
Serão altos e baixos pra sempre e isso ainda me assusta…
Mas de uma coisa tenho certeza: viver agora tornou-se muito, muito mais simples.

Posted by DaniPassos on julho 27th, 2007 4 Comments

O Homem do Mato

O Homem do Mato gosta do mato.
De ar puro, terra, vaca, boi.
Do barulho silencioso da noite.
Não corta o cabelo, não faz a barba e não se penteia.
Interpreta o som do vento.
O Homem do Mato colhe na horta pra se alimentar.
Sobe-morro-desce-morro.

Aprende com a roça e valoriza o conhecimento caipira.
Enxerga beleza onde nem todo mundo vê.
O Homem do Mato vive.
Passa a tarde sentado na varanda, sentindo o tempo ir embora.
Sem pressa, sem companhia.
Entende a solidão e não sente falta de televisão.
O Homem do Mato sabe e não precisa provar.
Tem a sensibilidade da terra.
E ouve com o coração.

Posted by DaniPassos on julho 25th, 2007 3 Comments

2 de agosto

O aniversário dele está chegando e pra mim isso é como se alguém viesse e chutasse meu coração, espalhando todos os pedaços que venho tentando colar.
Ele faria 4 anos. E ganharia uma festa do filme “Carros”, que eu procurei para o ano passado, mas não encontrei. Deixei pra lá, pensando em fazer no ano seguinte, e caprichei numa decoração que ele adorou: a festa do Batman. Lembro que pensei até em vesti-lo com a roupa do homem-morcego que ele usava direto, mas já estava bem surrada…
Enfim, que bom que ele se divertiu.
Os dias têm passado arrastados, tristes, pesados. O luto está mais ameno sim, mas este é um dos picos mais fortes, o que eu já esperava que acontecesse.
O que eu faço? Espero passar, vivo minha vida, trabalho, amo, planejo.
Afinal, será só mais um dia, como todos os outros do resto da minha vida: cheio de saudade.

Posted by DaniPassos on julho 12th, 2007 4 Comments

Tem dia que bate.

Já faz quase oito meses.
Quando bate, sinto um calor esquisito dentro de mim, como uma dor de estômago quente, que lateja, sobe pela garganta e quer sair em lágrimas. Embora a cada dia que passa ela pareça mais interna, sempre que vem dá mostras de que morará aqui por toda a minha vida.
Não tenho mais raiva ou frustração. Tenho saudade. Muita saudade. Inclusive, deve haver uma outra palavra pra definir isso, porque não é a simples saudade, que conhecemos naturalmente. É um negócio diferente e muito, muito mais intenso. Aquele sorriso que me fazia tão bem agora dói de um jeito tão profundo e distante, que às vezes sinto-me culpada por ter me acostumado. Por ter aceitado, por tê-lo deixado ir sozinho.
Aí, como se uma mão bem forte me pegasse pelos tornozelos e me puxasse de volta ao chão, à realidade, lembro que fiz tudo o que podia, e nosso destino era esse.
O mínimo que eu tenho que fazer é me acostumar e viver o que restou pra mim.
Com o que restou de mim.

Posted by DaniPassos on maio 18th, 2007 8 Comments